Domingo, Setembro 05, 2010
   
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Por Silvia Noara Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
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Embora vizinho à caótica São Paulo, o município de São Caetano do Sul, na região do ABC paulista, ainda reserva algumas características comuns a cidades do interior, como costumam descrever os próprios cidadãos residentes. Com cerca de 150 mil habitantes, possui um dos melhores índices de desenvolvimento econômico e social do Brasil, além de uma razoável tranquilidade, e foi marcada pelo avanço econômico nas esferas industrial e automobilística. Mas o que Renato Grau, empresário da região, realmente deseja é tornar a cidade  um pólo de tecnologia e, assim, contribuir para a geração de riquezas para a comunidade como um todo.“Eu gosto de tecnologia, gosto de ser empresário e, de uma certa maneira, gosto de ajudar o ambiente em que eu atuo”, relata Grau, que além de diretor-executivo e fundador da Innovision Systems, prestadora de serviços de TI, atua no desenvolvimento do ecossistema de empresas de tecnologia do município, como membro do Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul (ITESCS), voltado a alavancar os negócios das empresas associadas. Entre os projetos coordenados pela entidade, destaca-se o APL (Arranjo Produtivo Local) de TI&C do Grande ABC, que congrega 26 companhias da região – entre elas, a própria Innovision e também a D3!, citada nesta reportagem – e recebeu apoio de R$ 1,2 milhão do Sebrae (Agência de Apoio ao Empreendedor e Pequeno Empresário). O projeto, para o qual o executivo responde como diretor e vice-presidente do Conselhode Administração, tem duração prevista até dezembro de 2011. Além disso, o ITESCS comemora a recente aprovação do projeto de incubadora de empresas de TI&C pelo BID (Banco Interamericano de  esenvolvimento), que começou a ser executado em março e deve iniciar as atividades em maio deste ano.

“Queremos que São Caetano se torne um pólo de tecnologia. E este é um momento em que empresas estão participando ativamente, estão mais comprometidas”, afirma Grau, que assume a vice-presidência da incubadora, sediada na Universidade de São Caetano do Sul (USCS). “Existe uma área reservada para 10 empresas incubadas”, adiciona o executivo, mencionando ainda o projeto de capacitação de pessoas em convêncio com a FATEC (Faculdade de Tecnologia). “Acho legal haver esse grupo de empresas pequenas, para mostrar as experiências e as dificuldades que eu já tive, como falta de disponibilidade de crédito no mercado e indefinição de foco. Além disso, acaba acontecendo geração de negócios nesse networking”, comenta Grau. Neste contexto, o APL conta com apoio de consultorias em gestão empresarial, vendas, marketing, entre outras displicinas, a fim de auxiliar a evolução desses empreendimentos.

 

  
 

QUEM ENTENDE DO SMB?

Em atividade há 14 anos, a Innovision tem como foco a prestação de serviços para empresas de diferentes portes. Nos últimos anos, seguiu a direção de dividir a companhia em linhas de negócios distintos – enterprise, a partir de contratos com grandes clientes como IBM, T-Systems e CPM-Braxis, que utilizam a estrutura da Innovision para entrega de serviços – e SMB, com a proposta de compor ofertas cabíveis às necessidades e ao bolso das empresas do segmento, este que é o sonho de qualquer fornecedor de TI.“A ideia foi criar uma oferta para empresas que não são consumidoras de informática, que não conhecem e não sabem comprar ou gerir TI”, explica Grau, que recorda: “Sempre fizemos prestação de serviços, mas num modelo mais tradicional, e eu não estava gostando disso”. Neste momento, o executivo encontrou e foi um dos primeiros a implementar a plataforma de gerenciamento remoto da Kaseya. À ferramenta, adicionou um software complementar de service desk e, ainda, os terceiro e quarto pilares desse ambiente: SonicWall e Microsoft. “Usamos tecnologia para prestar serviço de tecnologia”. Com isso, o executivo quer dizer que, de maneira automática e remota, é possível gerenciar todos os dispositivos integrados à rede do cliente, muitas vezes, em que ele perceba que existe um problema no ambiente. “E o cliente vai pagar a mesma coisa ou menos para ter esse atendimento, na comparação com contratos convencionais de serviços”, diz Grau. Efetivamente, a oferta está em andamento deste novembro do ano passado e o mercado vislumbrado pela Innovision é o de empresas com 50 a 300 PCs.
Segundo o executivo, a companhia já soma de 20 a 30 clientes dessa modalidade – que pode ser adotada por pacote integral (desktops, servidores e segurança) ou parcial (apenas uma fatia da oferta, inclundo serviços de consultoria). Até o final deste ano, a meta é duplicar ou até triplicar essa base, mas o principal foco é ampliar a receita recorrente nos clientes atuais. “É preciso haver uma mudança de cultura nas empresas. Temos que mostrar que a situação que o cliente tem hoje acaba sendo mais cara do que a solução que estamos propondo”, argumenta o executivo. Para suportar a estratégia, a Innovision mantém uma rede de mais de 400 assistências técnicas no País, que são gerenciadas pela companhia a fim de manter a qualidade do serviço, no caso da necessidade de deslocar um técnico até o cliente. “Sob o ponto de vista comercial, eu não tenho custo fixo e consigo um valor mais baixo para o mercado. Do ponto de vista operacional, preciso ter a gestão centralizada”, analisa o diretor, lembrando que a empresa conta ainda com 100 funcionários técnicos que ficam alocados nos clientes. O plano é ampliar essa rede para a América Latina, gradativamente.
Desde o início, quando criou o seu próprio negócio, Grau enxergou à frente a vida curta das margens na venda

de computadores. “O que eu queria era apostar em serviços e projeto, valor agregado, trabalhar com inovação”, relembra o executivo. “Hoje, quem me suporta é Kaseya, é SonicWall, mas eu não vendo essas ferramentas. Eu vendo a minha inteligência independente de quem esteja atrás de mim”. É este o caminho que, mais de uma década depois, muitas empresas de TI, hoje, tentam alcançar.

 


 

 

Ousadia para arriscar, reconhecimento e aperfeiçoamento das deficiências em gestão, coragem para confiar no poder intuitivo, persistência diante das necessidades de mudança e geração de riquezas para a comunidade. Estas são condutas que diferenciam os empreendedores entrevistados para esta reportagem de empresários convencionais. Um deles é John Callon, que antecipou uma tendência de mercado e, após três anos de estudo, desenvolveu uma solução voltada a permitir reuniões virtuais  seguras no mundo corporativo. Já Fabio Hayashi confiou às melhores pessoas o crescimento futuro de sua companhia, a Deal. Romério Lima, da Sinfonia, superou seus interesses pessoais ao montar um negócio que, com base na tecnologia, auxilia as empresas a percorrerem o caminho da sustentabilidade, enquanto André Melo, da ASystems, faz o mesmo ao utilizar a Lei de Inovação a favor de seus clientes. Edson Pavoni, da D3!, defende uma gestão de pessoas que mantém os colaboradores livres e felizes. E Renato Grau, da Innovision, aposta no gargalo de fornecimento de serviços de TI que realmente se adequem às companhias do SMB. Seis modelos de negócios, seis líderes e seis histórias marcadas por empreendedorismo e inovação.

 Aos 25 anos e já dono de seu próprio empreendimento, Edson Pavoni nunca trabalhou em uma companhia convencional. Preencher relatórios de atividades, submeter-se a uma hierarquia repressora e aceitar ordem por simples condicionamento a obedecê-la são condutas que afrontam a sua criatividade. “Eu não faço nada com que eu não concorde”, decreta ele. “Em uma empresa muito grande, é difícil mudar alguma coisa. E quando as pessoas vão se acostumando a fazer coisas com que não concordam, vão se tornando infelizes e improdutivas”.

Livre, questionador, ousado. Estas são algumas características que parecem moldar o perfil de Edson e que o inserem na camada dos jovens empreendedores conhecidos como geração Y, ou internet generation, aquela que nasceu entre 1980 e 1990 e começa a provocar mudanças profundas no mercado de trabalho. Edson é um dos fundadores e sócios da D3!, estúdio de mídia interativa, ao lado do amigo João Marcos de Souza. Em atividade desde 2002, a empresa, de lá para cá, tem passado por evoluções em termos de foco de atuação, posicionamento de marca e gestão. Mas há valores que não são negociáveis: “Nosso estilo de administração não funciona se tiver pessoas que não são automotivadas. Aqui, todo mundo tem voz e pensa sobre aquilo que está fazendo”. E não se trata de mero discurso. Em novembro do ano passado, os sócios migraram o escritório da companhia de São Caetano do Sul, no ABC paulista, para Nova York, Estados Unidos. Cinco dos seis funcionários partiram para a jornada, motivada, entre outros fatores, pela tendência do próprio mercado nacional de criação em perder os seus bons profissionais. “Chega uma hora em que os bons funcionários saem do Brasil para trabalhar fora, às vezes, até para trabalhar em uma agência ruim, pois simplesmente vão morar em um lugar bacana”, conta Edson. O time de programadores, designers e gerentes de projeto – todos abaixo dos 26 anos – se instalou durante um mês em um apartamento alugado na fervorosa ilha de Manhattan. A iniciativa custou à empresa cerca de R$ 25 mil e, mais do que as seis a oito horas diárias de trabalho, propiciou aos sócios e funcionários uma experiência pessoal de vivência em outro país, contatos profissionais e novos amigos, sem contar a boa repercussão nos clientes da companhia. Edson conta que, neste ano, a ideia é repetir a dose, tendo como destino São Francisco (Estados Unidos) ou Londres (Inglaterra). Mas, encontrar pessoas que incorporem o espírito de trabalho da D3! nem sempre é uma tarefa simples, segundo o jovem gestor. “Temos uma vaga aberta há um ano”, diz ele. Por isso, a companhia criou o D3! Academy, um programa remunerado de estágio e treinamento. Em sua terceira edição, a iniciativa, neste ano, bateu a marca de 2 mil currículos recebidos. Na página de recomendações para os candidatos, há o seguinteaviso (sic): O que eu NÃO posso ser? Sono (Distraído, sem foco e autoengajamento nos projetos que produz); Bebê (Precisa de uma babá a todo tempo dizendo o que deve e o que não deve fazer); Mala (Que não tem jogo de cintura para trabalhar em equipe de forma harmoniosa).

Entre os prêmios conquistados pela empresa está o FWA (Favorite Website Awards), que reconhece os sites mais diferenciados e criativos do mundo.

FOCO, APRENDIZADO E CONFIANÇA

A D3! surgiu de forma despretensiosa. Assim como Edson, diante das primeiras oportunidades de atuar no desenvolvimento de websites, ganhou um computador dos pais e foi autodidata na utilização das ferramentas disponíveis na época. “Naquele tempo, em termos de interface, tudo era bem caótico, todos tinham ainda internet discada”, conta ele, que hoje é formado pela Escola Panamericana de Artes e pela Universidade Presbiteriana Makenzie. “Mas quando entramos na faculdade, a D3! já existia”. Como todo começo, Edson recorda as dificuldades dos primeiros anos de atividade da D3!. “Trabalhamos mais ou menos um ano sem ganhar praticamente nada. Foi só em 2007 que a empresa deslanchou, e quando chegamos a ter 15 funcionários”, diz o designer-programador, como gosta de nomear, lembrando que, neste momento, os sócios já tinham um ano inteiro comprometido com projetos fechados para diversos clientes. “Começamos, então, a ver todas as dificuldades adiministrativas e de gestão de pessoas, não tínhamos experiência”. Apesar da imaturidade na gestão empresarial, no começo de 2008, a D3! tomou uma decisão difícil e na qual grande parte das empresas reluta em acreditar: o afunilamento do foco de negócios. Em outras palavras, a companhia deixou de ser uma agência digital, com atendimento direto ao cliente, para se posicionar como produtora especializada em projetos digitais para agências de publicidade. “Optamos por focar aquilo que fazíamos de melhor, com atenção à qualidade de produção.E isso deu muito certo, pois o mercado já mostrava a necessidade das agências por projetos cada vez mais especializados”, explica Edson, que definiu o reposicionamento da D3! Como seu trabalho de conclusão de curso na faculdade.

 

 A medida também trouxe a necessidade de demissões – de 15 para 5 funcionários –, uma tarefa que pode ser bastante dolorosa quando se preza tanto pelo bem estar das pessoas que integram a companhia. “Ao fim do dia, foi todo mundo jogar paintball, para aliviar o clima”,  decorda Edson. Mas a decisão foi acertada. Após seis meses, a 3D! mantinha o mesmo faturamento e, um ano depois, chegou ao dobro dos resultados (ver gráfico desta reportagem). “Nunca fomos atrás de investimentos. Eu achava que os administradores tinham uma mentalidade quadrada, que não gostavam muito de ouvir. Mas poderíamos ter ganhado experiências dessas pessoas”, lamenta o empreendedor. 

Mas esses tempos ficaram para trás. Hoje, a 3D! participa de uma APL (Arranjo Produtivo Local), programa desenvolvido pelo Sebrae (Agência de Apoio ao Empreendedor e Pequeno Empresário), em São Caetano do Sul. Ao final da entrevista, pergunto a Edson se ele aceitaria um convite de trabalho para ganhar dez vezes mais em uma empresa convencional. “De jeito nenhum. Nossa cultura organizacional tem um potencial muito grande de crescimento”, responde ele, que, no momento da conversa, comemorava a compra das cadeiras que sempre quis para o seu escritório: as chamadas “Aeron Chair”, conhecidas pelo design inovador em todo o mundo. Todos os colaboradores ganharam uma.

 

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